Vanessa da Mata surge iluminada no palco. Com um vestido com LED, ela canta Valsa do Sorrir, tocando um instrumento de percussão indefinido que Vanessa comprou em Barcelona, na Espanha.

Vanessa da Mata mostra seu baile em novo DVD

Vanessa da Mata mostra seu baile em novo DVD

Esse início de show, suave, não dá pista de que, logo a seguir, Vanessa vai emendar Gente Feliz e comandar, dali para frente, um animado baile no show registrado em DVD e CD, Caixinha de Música. A gravação foi em maio, na Casa Natura Musical, em São Paulo – da qual ela é uma das sócias – e já ganhou estrada: passou pelos EUA e chega nesta sexta, 29, a Vitória, e neste sábado, 30, ao Tom Brasil, em São Paulo.

Gente Feliz é uma das canções inéditas do show que, no repertório, vêm combinadas com sucessos de Vanessa que ganharam novas roupagens. A letra é forte, atual. “Não procure mais/Gente que te faz sofrer/Pra que o autoabuso/Dar o rosto a bater/Há problemas sim/Sem beijo na boca/Sem solução mágica/Vamos trabalhar”, diz um trecho.

“O nome Gente Feliz remete a uma coisa inocente, passiva, mas não tem nada a ver com isso. A primeira ideia dessa música veio de uma frase que a Fafá de Belém me contou há uns dez anos, que acho que se encontra muito neste momento. Elis disse para ela: ‘não deixe que ninguém apague o seu sorriso, porque o meu apagaram’. Isso me chocou muito”, conta Vanessa, ao Estado. “É um momento de desesperança, muita gente sendo indiciada, presa, são muitas traições. Acho que a gente não pode perder uma coisa tão genuína nossa, que é valiosa, que é o simplesmente ser feliz. Por um lado, a gente não está sabendo lidar com essa felicidade gratuita e não querendo lidar com o lado ruim. Por outro lado, já tem uma outra desesperança, amargura de ficar sentado e reclamar de tudo. Não é o ideal nem de um lado nem de outro. Para mim, é misturar essas duas coisas: ser feliz e, quando precisar lutar, sair da cadeira e protestar e gritar, lutar pelo que é melhor para todos. É uma fase coletiva de se pensar. Essa empatia precisa funcionar.”

No DVD, a canção entra também como bônus, com a participação vigorosa da BaianaSystem, uma das bandas festejadas do momento. Vanessa lembra que conheceu o trabalho do grupo há uns dois anos, em um festival em Belo Horizonte. Não os viu, mas os ouviu enquanto ela esperava sua vez de se apresentar. Ficou impressionada. “Tinha uma personalidade forte, com uma força musical original que eu só ouvi com o Chico Science & Nação Zumbi. Um não tem nada a ver com o outro, mas eles têm essa profundidade e um potencial de desenvolvimento, de mudança musical no Brasil”, diz.

A sonoridade do repertório mostra frescor, mesmo em hits mais conhecidos da cantora e compositora, como Ai, Ai, Ai e Não Me Deixe Só. É dançante, mas com raiz, descreve ela no DVD. Os ritmos ganham uma embalagem moderna, com texturas eletrônicas. “Tem muita gente que não percebe que o eletrônico tem um lance ritualístico”, diz. “O DVD tem uma sonoridade que é moderna, que é eletrônica, mas que não deixa de flertar com os graves, os tambores, os atabaques, e a coisa bem brasileira.”

Ainda sobre o repertório, vale destacar ainda os momentos ‘memória afetiva’ de Vanessa, que canta Vá Pro Inferno Com Seu Amor, música célebre da dupla sertaneja Milionário e José Rico, mas com uma levada rock, e Mágoas de Caboclo – que a avó de Vanessa ouvia na voz de Orlando Silva e a cantora, ainda criança, conheceu na versão de Nelson Gonçalves.

O projeto, que teve uma fase de ensaios no sítio de Tom Jobim – a bela Caixinha de Música foi composta no violão do maestro – marca um novo momento na vida de Vanessa. “Meus filhos estão adolescentes, já passaram pela fase de adaptação – como foi adoção tardia. Agora, estou curtindo muito mais, porque antes era uma responsabilidade de educar, medos e tabus que têm no Brasil que são horríveis ainda. Eles estão superparecidos comigo, o jeitinho, a doçura. Também me separei, me recuperei, estou apaixonada de novo, não estou falando necessariamente por alguém, mas por mim, pela vida. Acho que Caixinha de Música fala disso inclusive: do se reconhecer de uma maneira diferente, nova, sendo você mesmo.”

Leia Também: