28/04/2018

As acusações que fizeram Marco Polo Del Nero ser banido do futebol pela Fifa

Marco Polo Del Nero foi banido do futebol pela Fifa

O ex-presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) Marco Polo Del Nero foi banido de vez do futebol pela Fifa em comunicado divulgado nesta sexta-feira. Segundo a entidade, o cartola brasileiro foi afastado de todas as atividades no esporte por ter sido considerado culpado de acusações envolvendo "suborno e corrupção", "oferecer e aceitar presentes e outros benefícios", "conflitos de interesse" e por ter violado "regras gerais de conduta" do Código de Ética da Fifa.

Del Nero foi banido pela primeira vez do futebol ainda em dezembro do ano passado, quando a Fifa o suspendeu por 90 dias - com isso, ele foi obrigado a deixar a presidência da CBF, cargo para o qual foi eleito em 2014. Depois disso, a entidade estendeu a suspensão dele por mais 45 dias até anunciar o banimento total do futebol "para sempre" nesta sexta-feira.
O "pesadelo" do cartola brasileiro começou três anos atrás, quando estourou o chamado "Fifagate", o escândalo que abalou as estruturas da maior entidade do futebol mundial. Em maio de 2015, sete dirigentes da Fifa (incluindo o outro ex-presidente da CBF, antecessor de Del Nero, José Maria Marin) foram presos na Suíça e levados para os Estados Unidos, onde seriam julgados pelo Departamento de Justiça americano.
Naquele momento, o nome de Del Nero ainda não era citado diretamente nas acusações, mas a partir dali ele passou a temer pelo seu futuro no futebol - e, desde então, nunca mais deixou o Brasil.
Em competições internacionais, como as duas edições da Copa América que aconteceram desde então e outros amistosos da seleção brasileira, o então presidente da CBF optou por não acompanhar a equipe, como era de praxe dos outros mandatários da entidade (e até mesmo dele antes do escândalo). Críticos alegam que ele tenha tomado essa atitude por medo de ser preso fora do solo brasileiro.
Dali em diante, a situação se complicou para Del Nero, que viu seu nome aparecer oficialmente nas investigações em dezembro de 2015, quando o Departamento de Justiça dos Estados Unidos incluiu mais 16 nomes entre os indiciados - com mais dois presidentes da CBF envolvidos: Ricardo Teixeira, que antecedeu Marin e comandou a entidade de 1989 a 2012, e Del Nero.
Em dezembro do ano passado, a promotoria americana chegou a acusar tanto Marin quanto Del Nero pelo recebimento de um total de US$ 6,5 milhões cada um em propinas pagas por negociações de direitos de transmissões de campeonatos (Copa do Brasil, Libertadores e Copa América).
Já afastado do comando do futebol brasileiro - mas tendo conseguido um aliado para substituí-lo em 2019, com a confirmação da eleição de Rogério Caboclo -, Del Nero segue negando todas as acusações que envolvem seu nome.
A CBF, por sua vez, divulgou nota a respeito da decisão da Fifa. "A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) informa que tomou conhecimento, hoje (27), da decisão do Comitê de Ética da Fifa em relação ao presidente Marco Polo Del Nero. A entidade esclarece que, em cumprimento à citada decisão e em linha com seu Estatuto, o vice-presidente Antônio Carlos Nunes de Lima segue à frente da Presidência."
Veja as acusações que pesam sobre o ex-presidente da CBF:

Escândalo da Fifa em 2015

Tudo começou com uma delação do empresário J. Hawilla, réu confesso que revelou o esquema envolvendo dirigentes do futebol brasileiro para a Justiça americana.
Hawilla é dono da Traffic Group, maior agência de marketing esportivo da América Latina. Segundo as autoridades americanas, ele confessou culpa em dezembro de 2014 por acusações de extorsão, fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e obstrução da justiça. Em maio de 2015, o escândalo veio à tona com a prisão dos dirigentes da Fifa em Zurique, onde aconteceria um congresso da entidade.
Segundo as investigações da Justiça dos Estados Unidos - que, à época, ainda não envolviam Del Nero - J. Hawilla pagava propina para três altos dirigentes da CBF para dividir os direitos sobre a Copa do Brasil. Outras acusações envolviam propinas também pelos direitos de transmissão da Copa América.
No relatório divulgado ainda em maio de 2015, a Justiça dos Estados Unidos mostra uma conversa entre Marin (citando o nome do ex-presidente da CBF) e o chamado "Co-Conspirador #2", J. Hawilla, em abril de 2014 para a divisão de propina relacionada à Copa América de 2016, organizada de maneira conjunta entre Conmebol e Concacaf.
"Em certo momento, quando Co-Conspirador #2 pergunta se era realmente necessário continuar pagando propina ao antecessor de Marin na presidência da CBF (Ricardo Teixeira), Marin diz: "Chegou o momento de, de isso vir ao nosso encontro. Verdade ou não?"
Co-Conspirador #2 concordou, afirmando: 'É claro, é claro, é claro. Esse dinheiro tinha que ser dado a vocês'. Marin concordou: 'É isso, está certo'", afirmava o documento divulgado pela Justiça americana.
O nome de Del Nero apareceu oficialmente nas investigações em dezembro de 2015, quando ele foi indiciado junto com outros 15 dirigentes do alto escalão do futebol (incluindo Ricardo Teixeira) por corrupção, formação de quadrilha e enriquecimento ilícito. Segundo a investigação da Justiça dos Estados Unidos, eles estariam envolvidos em um esquema que teria desviado mais de US$ 200 milhões em propina.
Foi aí que ele optou por se afastar da presidência da CBF em um primeiro momento, para "concentrar seus esforços na elaboração de sua defesa". Del Nero retornou ao cargo em abril de 2016.